Como eu aprendi inglês
 
            Cresci nos anos 60 na era do rock e das primeiras calças jeans, que naquele tempo eram chamadas de calça Lee. A influência da cultura americana trazida pela música, filmes e sociedade de consumo nos bombardeava dia e noite. E eu ... estudava alemão... Minha irmã, 5 anos mais velha, estudava inglês no InterAmericano em Curitiba. E eu ... estudava alemão. Não que eu não gostasse, mas era muito mais “bacana”, para usar uma gíria da época, estudar inglês. Meus pais sempre nos incentivaram a estudar línguas; éramos de uma família de classe média de pais trabalhadores e instruídos e minha mãe, que sempre trabalhou fora, dizia que conhecer línguas estrangeiras era muito bom para conseguir um emprego melhor, poder ler livros no original, poder conversar com pessoas de outras partes do mundo e, principalmente, poder viajar.
            Aos 17 anos minha irmã foi uma bolsista do AFS International Scholarships e passou quase um ano com uma família na Califórnia. Foi a gota d´água; impus meu desejo de estudar inglês. Meus pais aceitaram com a condição de que eu não deixasse o alemão de lado. Eu estava tão ansiosa por começar as aulas no Inter que não quis esperar o início do ano escolar e sacrifiquei o verão de 1968 para fazer curso de férias com aulas diárias. Eu caminhava cerca de meia hora até o centro da cidade, assistia uma hora e meia de aulas e voltava colina acima para casa; quando o bolso permitia, com um sorvete nas mãos. O método era o da gramática-tradução, as aulas em salas não muito grandes com cerca de vinte alunos e professores que rezavam pela cartilha da época (aqui entre nós, aulas bastante chatas). Mas eu, oras bolas, eu não me restringi à sala de aula. Como “rata de biblioteca” que era, com carteirinha da Biblioteca Pública do Paraná, com fama de ter lido tudo que havia em casa, na casa do vizinho Engel, na biblioteca do colégio em que estudava, enfim em todas as bibliotecas que pudesse alcançar, não me conformei em apenas ir às aulas. Comecei a explorar o Inter que funcionava no 9o. andar do Edifício Garcez na Rua XV, hoje Rua das Flores. Descobri que aquela era uma biblioteca diferente: tinha revistas em inglês, discos de vinil e fitas magnéticas em rolo, e aparelhos de som onde se podia ouvir as músicas. Que paraíso! O verão foi divertido e proveitoso. Eu até já arriscava escrever algumas palavras ou pequenas frases em inglês entremeadas nas fofocas sobre o Festival de Música Brasileira da TV Record que eu mandava para minha irmã.
            Quando ela voltou, foi a glória! Ganhei um vestido no modelo do Sargent Pepper´s Club dos Beatles, muito chicletes americano e uma calça Lee novinha. Minha irmã trouxe discos do quarteto de Liverpool, de Peter, Paul and Mary, entre outros. O ano escolar regular começou e eu tive que aprender a dividir meu tempo de estudo entre o último ano do ginásio, as aulas de alemão, de inglês e de piano. O planejamento de horários para tudo vem da necessidade de se precisar fazer bem tudo isso. Eu não tinha consciência disso, mas já naquela época aprendi a dividir meus horários e organizar meu esquema de estudos.
            Entrei no Curso Normal e prossegui minha vida de aprendiz de línguas. Em alemão, eu fazia o estritamente necessário para não ficar reprovada. Já em inglês... lancei mão de tudo ao meu alcance. Eu ouvia à exaustão os discos de minha irmã e tentava “tirar” as letras das músicas. Naquele tempo os álbuns não traziam as letras. Eu falava inglês sozinha, perguntando e respondendo coisas que eu via nas lições. Lembro-me claramente de episódios onde eu conversava comigo mesma em inglês no banho, em frente ao espelho, com meus desenhos, etc. Em nossa casa, cada um podia dar palpites ou pintar seu quarto como quisesse. Minhas paredes eram cheias de cartazes psicodélicos em inglês e de paisagens estrangeiras. Lembro-me claramente de um que dizia “Pity the poor cat has nine lives to live”. Os dizeres me intrigavam porque não foi de imediato que eu compreendi esta frase. Investiguei, perguntei, até entendê-lo. Quantas informações havia neste cartaz: primeiro que pity poderia ser um substantivo ou um verbo no imperativo, depois a informação cultural de que nos EUA os gatos têm nove vidas (ao invés de sete). Estas informações culturais entravam naturalmente em minha consciência, sem eu me perguntar o porquê. Eu entrava em agências de turismo para pedir esses cartazes e “aproveitava” para tentar ouvir um pouco de inglês, caso houvesse algum estrangeiro lá dentro. Eu ia aos Correios, postar alguma carta minha ou de meu pai, e ficava atenta procurando por estrangeiros em apuros com o sistema brasileiro. Caso visse algum, imediatamente eu me acercava e largava “May I help you?” Depois de resolvido o impasse, sempre sobrava uma palavrinha ou outra para eu praticar uma comunicação.
            Assim fui levando. Nas aulas de inglês não tive dificuldades para memorizar os verbos no passado, e por estudar alemão, achei facílimo o sistema verbal e adorei a idéia de não precisar decorar os artigos segundo os gêneros dos substantivos. Até que cheguei ao nível 4 de inglês e peguei um dos professores mais exigentes naquela época no Inter: Mr. Gilberto. Neste nível introduzia-se o Present e o Past Perfect tenses. Com tantos afazeres, com tantos apelos interessantes do inglês, aconteceu o impossível: fiquei reprovada! Como contar aos meus pais? Como fazê-los pagar de novo por um semestre perdido? Morta de vergonha, convoquei uma reunião familiar e contei toda a verdade. Eu havia, realmente me descuidado, mas aquele assunto gramatical era para mim muito difícil. Meus pais me ouviram sérios e perguntaram o que eu sugeria. Eu me propus a fazer curso de férias de novo (havia descontos atrativos) para recuperar o semestre perdido. Eles concordaram. E lá fiquei eu, pelo segundo ano, tomando sorvete e estudando inglês. Nesta segunda vez em que fiz o nível 4 conscientizei-me de que se quisesse aprender inglês de verdade, não bastaria ir às aulas, cantar as canções e falar abobrinhas com turistas. Eu teria que realmente estudar. Sentei-me e fiz esquemas enormes com folhas de papel almaço grudadas umas nas outras escrevendo frases em todos os tempos verbais que eu já conhecia, em diferentes pessoas do verbo, no afirmativo, no negativo, no interrogativo, com respostas longas, com respostas curtas, ufffa... Aprendi a estudar gramática. Funcionou para mim. Fui aprovada com facilidade e nunca mais tive dificuldade para estudar para as provas de inglês.
            Nesta época o Curso Normal começou a apertar, exigindo estágios e observações e eu precisei largar algumas atividades. É claro que fiquei só com o inglês. Tivemos bolsistas americanas vindo morar em nossa casa: Jeannie ficou 2 meses e Bárbara ficou todo o ano de 1970 conosco. Elas só reforçaram meu interesse pelo inglês, me ajudando com a pronúncia enquanto eu lhes ensinava alegremente o português.
            Com Bárbara, cujo pai era militar em Anápolis, cuja mãe era funcionária do governo Nixon e cujo irmão era piloto de helicóptero no Vietnam, aprendi a ver o lado negativo dos Estados Unidos. Ela, que com a respiração presa, abria as cartas que lhe chegavam até abrir num sorriso ao saber que o irmão estava bem, me relatou os protestos anti-guerra, a quantidade de POWs (prisioners of war) e MIAs (missing in action) entre seus amigos e parentes. Dividimos o quarto, de paredes agora cobertas de cartazes de protesto, as vidas de adolescentes tão iguais e tão diferentes e construímos uma amizade para a vida toda. Vi Bárbara apenas duas vezes depois que ela deixou nossa casa em Curitiba, mas quando anos mais tarde a filha de minha irmã nasceu, não houve outro nome a escolher. Temos na família minha sobrinha Bárbara, que hoje é excelente professora de inglês.
            Em agosto de 1971 foi a minha vez de embarcar para a Carolina do Norte e viver um ano com uma família americana. Quando cheguei lá, percebi que eu já falava um tipo de inglês, mas que teria que aprender as nuances fonológicas e lexicais típicas do sul. Logo no princípio, ficava irritada porque não conseguia entender o que meu avô americano dizia, pois ele era das montanhas da Carolina e falava quase que um dialeto local, muito diferente. Passei um ano quase sem falar português. Telefonemas eram complicados, falei com minha família no Brasil no Natal e no meu aniversário. Embora tivéssemos encontros regulares dos bolsistas na região, não havia nenhum brasileiro além de mim. Então passei a falar inglês com franceses, suecos, alemães, australianos, africanos do sul, japoneses, enfim, passei a ouvir todos esses diferentes sotaques. Eu tinha um irmão americano de 11 anos que me ensinou as lendas e estórias infantis, tais como The Sandman, Paul Bunyan, etc. Me saí bem na escola, especialmente em inglês, e aprendi a falar como uma sulista, acentuando as vogais abertas finais e imprimindo um ritmo indolente à minha fala.
            Voltando ao Brasil, em julho de 1972, fui conversar com a diretora do InterAmericano em Curitiba para ver se conseguia avançar alguns níveis, uma vez que eu era quase uma falante nativa. Lembro-me bem do ambiente formal, ela em sua escrivaninha e eu pequenina, humilde sentada à sua frente. Quando, orgulhosa, abri minha boca para explicar o que queria – com aquele sotaque sulista, ela arregalou os olhos e explodiu num protesto: What did they do to your English? Anos mais tarde, no mestrado que fiz em Lingüística na Unicamp e quando estudei muita Sociolingüística, é que fui entender todo o preconceito encerrado naquela reação.
            O fato é que com o inglês que eu havia aprimorado durante minha estadia nos Estados Unidos, passei facilmente no exame de Michigan e conclui o curso avançado de inglês no Inter. Aos poucos, fui me adequando novamente ao sotaque padrão.
            Chegou o tempo do vestibular. Entre os cursos da área de Humanas, Letras era um de meus preferidos. Passei em 8o. lugar, só que ao invés de cursar Inglês, como era de se esperar, optei em voltar para o Alemão, língua de meus antepassados. Na época julguei que, como eu já sabia bem o inglês, preferia estudar uma nova língua. Os alunos da Universidade Federal do Paraná que faziam alemão tinham preços especiais para estudar no Goethe Institut que promovia cursos de alemão e atividades culturais em uma efervescente Curitiba de meados dos anos 70. Lancei mão de todas as oportunidades e aprendi também alemão.
            Inglês foi, desde que voltei dos Estados Unidos, meu ganha-pão. Dava aulas particulares em todos os horários que tinha livre na Universidade. Meus trabalhos e seminários eram preparados a noite e nos finais de semana. Hoje reconheço que ao dar aulas de inglês, eu me impunha a pesquisa sobre como melhor ensinar a língua que eu havia aprendido. Para cada situação, para cada aluno, eu buscava ou até criava os materiais mais apropriados. Devido a esta metodologia peculiar, eu era requisitadíssima como professora. Tive até dois alunos, filhos de um médico que havia feito doutorado nos Estados Unidos, onde eu ia dar aulas para brincar em inglês, pois a mãe queria que eles mantivessem o domínio da língua.
            No final da faculdade precisei decidir entre o mestrado na Unicamp em Lingüística ou o Curso de Preparação para Professores de Alemão, primeiramente em Belo Horizonte e depois na Alemanha. Optei pelo primeiro e daí as coisas se precipitaram.    Em Campinas, estudando a fundo os mecanismos que regem o funcionamento da linguagem e suas situações de uso, fui me apaixonando cada vez mais pela minha profissão. Durante o mestrado conheci meu marido, um paraense que me trouxe para Belém, onde continuei minha carreira de professora de inglês. Por imposição legal para avançar na profissão, voltei para a faculdade e fiz a formação complementar para obter o diploma de licenciada em Letras Inglês na Universidade Federal do Pará. Para continuar ensinando inglês, estudei e estudo cada vez mais. Até hoje, gosto muito de preparar um assunto novo, gosto de ensinar cursos que nunca ensinei antes porque sei que antes de ensinar, vou aprender muito sobre aquele assunto.
Anos mais tarde, para empreender meus estudos de doutorado, aprendi francês. Comecei autonomamente com cursos em fitas cassete e livros, depois com programas de computador, para aprender os elementos básicos da língua. Em seguida, contratei professores particulares ou tive aulas em dupla. O aprendizado avançou rapidamente pois eu já me conhecia bem enquanto aprendiz e tomei todas as providências para avançar no meu conhecimento da língua francesa. Quando chegou o momento de ir para a França, embarquei sozinha e não tive grandes problemas de entendimento nem durante a viagem, nem na universidade. Com o tempo, tornei-me fluente também em francês.
Até hoje, continuo a me interessar por aprender mais e melhor as línguas estrangeiras que falo. O fato de trabalhar com o ensino de línguas estrangeiras é para mim uma excelente maneira de aliar a necessidade com o prazer. Enfim, estudar para ensinar é o que mais gosto de fazer.
           
            Walkyria Magno e Silva