João Pessoa, agosto de 2007
Carla L. Reichmann
Minha história e trajetória com línguas estrangeiras
é uma trama complexa. Nasci nos EUA e cresci no Brasil,
bilingüe, inglês/português, rodeada pela minha
família multilingüe, europeus radicados em São
Paulo desde 1940. Em casa ouvia polonês, inglês, alemão,
português. Meu avô paterno falava fluentemente oito
línguas, minha avó cinco, meu pai, seis. Na verdade
tudo me parecia uma grande, única linguagem. Atualmente,
lendo teorias contemporâneas sobre construção
de identidade, me divirto: desde sempre convivi com muitas referências
culturais, vivenciei identidades fragmentadas, múltiplas,
multiculturais. Minha família do velho mundo e meu nomadismo
são pós-modernos.
Formalmente, tive vários experiências
memoráveis de aprendizagem de línguas, professores
inesquecíveis. Estudei numa escola britânica, o St.
Paul´s, dos 5 aos 15 anos; ao ingressar no “Kindergarten”
da escola, fui logo alfabetizada em inglês, tinha duas professoras
– a Mrs.Hart e a Miss Schoneweg.. Lembro bem do primeiro texto
que li em português, mais tarde, em casa– uma revistinha
do Zé Carioca, fui concluindo a função dos
acentos, numa historinha cheia de bolhas de sabão... Minha
primeira aula de LE, propriamente dita, foi de francês, nessa
escola, com a inesquecível Mme Ross. Até hoje me lembro
da primeira aula, desenhando a bandeira francesa e gravemente repetindo
a frase, “Le drapeau français est bleu, blanc et rouge...”.
Boatos que a professora tinha sido da heróica Resistência
francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Mas esses estudos foram
interrompidos, atualmente arranho um francês... E líamos
muitas, muitas obras anglo-americanas nesta escola, com Mr.Maxwell
e Mr. Mitchell, leituras que me alimentaram desde muito cedo. Shakespeare,
Dickens, Brontë, Shaw, Hemingway, Steinbeck, Orwell. Nesta
escola a maioria dos meus colegas eram trilingües.. Lá
eu ouvia italiano, espanhol, sueco – tinha colegas de várias
nacionalidades. E variações de ingleses e escoceses,
alunos e professores, que aterrisavam nesta escola, iam e vinham.
Aos dez anos viajei com minha avó materna para os EUA, passamos
umas férias com sua irmã e seus dois irmãos
que viviam lá. Uma viagem marcante. Aliás, fiz muitas
viagens marcantes – acompanhadas sempre pelos meus diários
de viagem...
Depois, a ida a uma escola brasileira, fiz o o
´colegial´ no Santa Cruz. E pela primeira vez me vi
em um grupo de colegas monolingües, me lembro como me parecia
estranho o pessoal que só falava uma língua. No contexto
geral, parecia que faltava algo. Mas a aula de inglês nesta
escola já me chamava a atenção, queria ver
o que iriam fazer comigo – e foi feito um nivelamento interessante,
seis grupos, e me lembro da professora motivando todo mundo –
líamos contos americanos contemporâneos, discutíamos
oralmente e por escrito. Foco na competência comunicativa,
especialmente em pensamento crítico. Eu gostava, aprendia.
Uma escola maravilhosa, professores incríveis, nossa educação
era a cara dos diretores franco-canadenses, o Corbeil e o Charbonneau.
Líamos Sartre, Kafka, Pessoa e assistíamos Fellini,
Antonioni, Kubrick, McLaren... E não há dúvidas
sobre a importância da minha mãe na minha formação:
minha mãe foi a responsável pela escolha dessas escolas
excelentes e me passou seu amor pela leitura, línguas e livros,
cresci imersa na sua biblioteca, e fui formando a minha.
Em 1980, segui para a faculdade de jornalismo,
na PUC-SP. Durante o curso dava aulas particulares de inglês
e fazia traduções, mas jamais pensava em ser professora.
(Apesar de brincar muito de professora, na infância, minha
querida aluna Bia...). Nesse mesmo ano surgiu um interesse repentino
em estudar hebraico, e é esta experiência que considero
como referência pessoal, na minha trajetória de aprendiz
de LE. Estudei um semestre na Casa de Cultura de Israel, com uma
professora maravilhosa, a israelense Rivka Solnik. Sua energia,
sua alegria em ensinar transbordava. Como o alfabeto também
não era o mesmo, as primeiras aulas eram assim: ela apontando
para as coisas e falando mesa, cadeira, carteria, aluno, professora,
em hebraico. A gente absorvendo. E a surpresa quando percebi que
os verbos além de número tinham gênero, e que
não havia verbo ´ser´ no presente, eu Carla.
Todas as palavras com uma raiz de três letras, ocasionalmente
quatro. Tudo super lógico, um jogo. Primeiro, transliteração
de tudo no caderno; aos poucos, fomos aprendendo o alfabeto. Era
tudo tão absolutamente lúdico para mim, tão
fascinante, essas duas aulas semanais eram o máximo.
No ano seguinte passei um tempo em Israel, onde basicamente usei
o inglês, mas a imersão em hebraico foi total. Voltei
ao Brasil, tive dois anos e meio de aulas particulares com outra
professora ótima, também israelense, Ora Kuperschmitt.
Estudava muito. Lia, escrevia, estudava gramática, e na aula
falávamos, falávamos....Em 1984 morei de novo em Israel,
me inscrevi num curso de hebraico na Universidade de Haifa. Quando
me passaram o resultado do nivelamento -- eu estava na turma mais
avançada de todas -- tinha certeza que algo estava errado,
fui tentar mudar de turma. Mas insistiram que esta era a minha turma,
e assim segui adiante. Foi uma surpresa total verificar que sim,
eu estava na turma certa. Aí percebi que havia me tornado
fluente. Mais um alter ego. O curso era super intensivo, cinco horas
por dia por três meses, num grupo de americanos, mexicanos,
iranianos e franceses. Excelente professora, Mina Ben-Meir. Foi
o período áureo do meu hebraico, fiquei fluentíssima
(vejam bem, isso há vinte anos atrás). Mas depois
voltei para São Paulo, ainda estudei um tempo com a Ora.,
passei dois meses em Israel em 1987, depois nunca mais. Minha vida
seguiu por outro lado. E meu hebraico está por aí,
adormecido. Essencialmente, continuo sendo um ser bilíngüe,
entendendo e me virando em várias línguas.
No meio tempo, iniciei meu trabalho com língua
estrangeira. Em 1985 comecei a dar aulas de inglês, na Associação
Alumni em SP. Passei a estudar aspectos lingüísticos
variados nos quais jamais havia pensado (o present perfect, o schwa...)
como também correção, motivação,
projetos, dinâmicas de sala de aula... As perguntas dos alunos
me intrigavam, resolvi fazer umas disciplinas no LAEL, na PUC. Em
1986/87 estudei com Michael Scott, John Holmes, Andrew Cohen...
Comecei a pesquisar. Aproveitei para tb pesquisar meu aprendizado
de hebraico com a Ora, incorporando atividades de produção
textual usando “reformulação”, seguindo
o que via nas aulas com Andrew Cohen (na PUC), sendo que fui sua
assistente de pesquisa. Também pesquisei reformulação
com uma turma de alunos adolescentes, no Alumni. Trabalhei na Seven,
onde pela primeira vez participei de grupos de discussão
supervisionados, com psicodrama, o impacto foi grande. E foi Debbie
Schisler, da Seven, que um tempo depois, em 1990, me falou da School
for International Training (SIT), em Vermont, EUA. Lá fiz
mestrado em Ensino de Inglês como Segunda Língua (TESL),
em um riquíssimo ambiente multicultural e multilíngue,
uma comunidade de prática. Foi fundamental rever e compreender
minha história discursiva, minha trajetória de vida,
minha prática profissional. Um resgate, juntando os fios
da meada, escrevendo reflexivamente. Meu estágio supervisionado
foi em Boston, ensinando inglês a operárias estrangeiras.
Em 1991, ainda no mestrado e logo após o estágio,
numa disciplina ministrada por Donald Freeman, a descoberta: um
diário dialogado escrito conjuntamente com o próprio
professor. A escrita reflexiva veio para ficar.
Na minha pesquisa-ação de mestrado,
com alunos adolescentes, estrangeiros, pesquisei video-análise
(ou visionamento, auto-confrontação). Os alunos se
observavam em vídeo, para trabalharem competência comunicativa.
Acompanhados de diários dialogados. Gostei. Depois do SIT,
fui trabalhar no departamento de Inglês como Segunda Língua
na Savannah College of Art and Design, na Georgia. Sempre com narrativas
- diários dialogados, gravações em vídeo,
reflexões. Voltei ao Brasil em 1993 e fiz um doutorado na
Universidade Federal de Santa Catarina, Lingüística
Aplicada na pós-graduação em inglês (2001).
Desta vez, meu foco foi um estudo de caso, um diário dialogado
em contexto de formação continuada, sob a ótica
da Linguistica Sistêmico-Funcional. Um trabalho de pesquisa
que até hoje ressoa na minha prática profissional,
balizando o meu fazer e o meu ser profissional; narrativas docentes
e discentes são o alicerce de tudo, possibilitando novos
projetos e pontes.
Hoje atuo na UFPB, onde desenvolvo um trabalho
com formação inicial e continuada, através
de narrativas em diversos formatos: memoriais, relatos reflexivos,
diários reflexivos (pessoais, dialogados, em grupo), portfólios,
blogs... Documentando práticas, histórias e trajetórias
de formadores e professores de língua inglesa, focalizando
práticas identitárias e o impacto vital da produção
e recepção diarista. As narrativas me fascinam e vejo
que fascinam os aprendizes na graduação, na pós,
na formação continuada. Esta narrativa - mais uma
- acabo de reconstruir.
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