AUTONOMIA EM UM MODELO FRACTAL DE AQUISIÇÃO DE LÍNGUA ESTRANGEIRA (AMFALE)
Vera Lúcia Menezes de Oliveira e PAIVA
Financiado pelo
CNPq no biênio 2003-2005
A
essência e a natureza do problema
Os
modelos de aquisição[1] de segunda língua
descrevem a aquisição sob diferentes perspectivas – como formação de hábitos
automáticos (Skinner, 1957), como resultado de exposição ao idioma (Krashen,
1985) e/ou da interação (Hatch,1978), e, até mesmo, como efeito de aculturação
(Schumann, 1978). Esses modelos
, a meu ver e de vários
autores (McLaughlin
, 1987; Ellis
, 1990; Brown
1993), não contemplam todos os processos envolvidos na aquisição
de uma língua e, muito menos, os de uma língua estrangeira
(LE). Vejo esses modelos como visões fragmentadas de partes
de um mesmo sistema. Embora seja possível teorizar sobre a existência de
alguns padrões gerais de aprendizagem
, cada pessoa tem as
características individuais, sendo impossível descrever todas as
possibilidades desses padrões. Há variações biológicas, de inteligência,
aptidão, atitude, idade, estilos cognitivos, motivação
, personalidade, de fatores
afetivos e de níveis de
autonomia. Além disso, há as variações do contexto
onde ocorre a aprendizagem ─ quantidade/qualidade de input
,
distância social, tipo e intensidade de feedback
, cultura, estereótipos,
etc. (ver Ellis
, 1990; Brown
, 1993; Ehrman
, 1996). Todos
esses fatores interferem, em maior ou menor grau, no processo de aprendizagem.
A combinação desses
fatores, no entanto, não é determinista no sentido de que, um conjunto X, na
proporção Y de variáveis, geraria uma aprendizagem
bem-sucedida ou malsucedida. O ser humano é imprevisível, e
mudanças e ajustamentos diferentes podem ocorrer em situações semelhantes.
Muitos autores já haviam
aludido à complexidade
do fenômeno.
Nunan
(2001:91) refere-se à complexidade de aquisição
de segunda língua (SL)
dizendo
“Current SLA research
orientations can be captured by a single word: complexity. Researchers have
begun to realise that there are social and interpersonal as well as
psychological dimensions to acquisition, that input
and output
are both important, that form and meaning are ultimately inseparable, and that
acquisition is an organic rather than a linear process.”[2]
O conceito de complexidade permeia vários trabalhos. Almeida
Filho
(1993:11), afirma
que “língua estrangeira
é um conceito complexo; Lightbown e Spada (1999:57) se
referem à motivação como um fenômeno complexo; e Ehrman (1996:xiv), ao
discutir dificuldades de aprendizagem de segunda língua, diz que os seres
humanos são complexos. Todos esses autores, acredito, usaram o termo
“complexo” com o sentido de intricado, difícil de explicar, ou como forma
de sinalizar as múltiplas partes do fenômeno
No entanto, foi Larsen-Freeman
(1997) quem primeiro tratou dessa complexidade à luz da
teoria dos sistemas
complexos
ou teoria do caos
.
Larsen-Freeman
(1997) apresenta evidências para comprovar que há semelhanças
entre a ciência do caos/complexidade
e a aquisição
de segunda língua: a dinamicidade do processo de aprendizagem
; sua
complexidade; a não-linearidade; a sujeição a atratores
[3];
e a auto-organização da interlíngua
[4]
que está em constante processo de reestruturação e se explica pela
sensibilidade do sistema ao feedback
.
Ao discutir os mecanismos de
aquisição, Larsen-Freman (1997:152-154) reconcilia Piaget
(construtivismo) e Chomsky
(inatismo), afirmando que tanto a criatividade individual
quanto a interação
social
se combinam para influenciar a moldagem da gramática
em
desenvolvimento[5].
(p.154)
Vygotsky
, bem antes do surgimento da
teoria dos sistemas
complexos
, na década de 20, já
teorizava que o pensamento verbal é uma entidade dinâmica e complexa e seu
desenvolvimento um percurso complexo, com múltiplas variações e uma
variedade infinita de movimentos progressivos e regressivos, de caminhos que
ainda desconhecemos. (Vygotsky
,1987: 130).
Motivada pela teoria da
complexidade
, pretendo prosseguir nessa
linha de reflexão, me proponho a examinar o fenômeno da autonomia
em diversos ambientes de aprendizagem, especialmente, em ambiente on-line
onde se espera maior autonomia dos aprendizes.
O aumento de pesquisas
qualitativas sobre aquisição
parece ser evidência de que a aprendizagem
não é um fenômeno que possa ser explicado de acordo com
leis causais. Segundo Erickson
(1990:104),
“positivist research on
teaching presumes that history repeats itself; that what can be learned from
past events can generalize to future events – in the same setting and in
different settings. Interpretive researchers are more cautious in their
assumptions.[6]
Para as ciências da
complexidade
, a natureza é um sistema
complexo e, dentro dele, convivem outros sistemas
igualmente complexos
. Parece-me promissor,
portanto, pensar a aprendizagem
de línguas como um desses subsistemas dinâmicos
complexos que, por sua vez, compreende outros subsistemas,
entre eles, a autonomia
Há evidências suficientes
para se advogar que a aprendizagem
de LE é um sistema complexo adaptativo – complexo pela
dificuldade de descrição e adaptativo pela capacidade de adaptação às
diferentes condições que lhe são impostas pelo ambiente. A passagem de
falante de uma língua materna
para falante de uma segunda língua, ou língua estrangeira
, é algo complexo que
acontece entre a ordem total e o caos, ou seja, a imprevisibilidade.
A
aprendizagem
de uma língua, como qualquer outra aprendizagem, não é um
processo linear e, portanto, não pode ser tão previsível quanto tem sido
hipotetizado em alguns modelos de aquisição
. Diferenças mínimas nas
condições iniciais de aprendizagem podem produzir resultados muito diferentes.
Nos sistemas
complexos
, como reporta Lewin
(1994:23),
“estímulos pequenos podem levar a conseqüências
dramáticas. Isso é freqüentemente caracterizado como o chamado efeito
borboleta: uma borboleta bate as asas na floresta amazônica, e põe em
movimento acontecimentos que levam a uma tempestade em Chicago. Na próxima vez
que a borboleta bate as asas, entretanto, não acontece nenhuma conseqüência
meteorológica.”
Nunca
podemos afirmar, com segurança, o que vai acontecer em um processo de
aprendizagem
,
pois os níveis de autonomia variam e o que funciona para um aprendiz não
é produtivo para outro. Há um conjunto imprevisível de comportamentos dinâmicos
possíveis no contexto
da aprendizagem
, pois a criatividade é uma
característica dos sistemas
complexos
. Norman, citado por Lewin
(1994:71), denomina essa “criatividade inerente aos sistemas
complexos
” de “o limite do caos
”.
Proponho, então, que um
modelo de aquisição
de línguas
deva ser pensado como um conjunto de conexões de um sistema
dinâmico que se move em direção ao “limite do caos
”, ponto de transição (Lewin
, 1994:71), ou seja, uma
zona de criatividade com potencial máximo para aprendizagem e que sofre a influência
de vários fatores, entre eles, os níveis e graus de autonomia do
aprendiz, objeto deste projeto
.
A dinâmica dessas conexões
faz com que esse sistema funcione, mas cada parte só é produtiva se estiver em
constante interação
com as outras e não como entidade independente. Como em uma
geometria fractal
, em um caleidoscópio, há
possibilidades infinitas de combinações dessas partes que constituem os
fractais
do processo de aquisição
. Pequenas alterações
poderão provocar mudanças substanciais, como o efeito de um seixo que rola e
desencadeia uma avalanche.
Advogar esse modelo de
aquisição não significa rejeitar os anteriores, mas conectando-os, pois cada
um deles tenta explicar uma fração do que ocorre no fenômeno complexo da
aprendizagem
. A conexão dos subsistemas
─ processos bio-cognitivo-afetivos
; motivação
; autonomia,
contexto
sócio-histórico;
processos de afiliação
[7];
processamento de input
;
criação de hábitos automáticos
; interação
─ pode
gerar períodos de estabilidade, entremeados por picos de mudanças. As turbulências
causadas por alterações em um dos módulos desencadeiam efeitos nos outros
elementos do sistema. Como os sistemas são adaptativos, após o caos, a ordem
se restabelece, mas nunca é igual à ordem anterior. Em outros momentos,
entretanto, nada acontece, demonstrando a imprevisibilidade dos sistemas
complexos.
Na
aprendizagem, como qualquer sistema complexo,
temos uma situação estável que uma força qualquer vem
perturbar. Disto resulta um estado de desequilíbrio; pela ação de uma força
dirigida em sentido inverso, o equilíbrio é restabelecido; o segundo equilíbrio
é semelhante ao primeiro, mas os dois nunca são idênticos.
As possibilidades do
desequilíbrio dessa ordem estável, no contexto
de aprendizagem
, são inúmeras. Um dos
exemplos mais simples seria a leitura de um texto em que aparece uma palavra
desconhecida, gerando um desequilíbrio no processamento do sentido. Dependendo
do grau de autonomia desse aprendiz, várias alternativas de forças no sentido
inverso podem ocorrer ─ consulta a dicionário, inferência do significado
pelo contexto, consulta a outra pessoa ─ para restabelecimento do equilíbrio,
que, no entanto, não é mais igual ao primeiro, pois uma conexão foi feita e
mais informação foi adicionada ao processo de aprendizagem
.
Em
Paiva (2002), apresento, de forma mais detalhada, uma primeira versão de um
modelo de aquisição que denomino de modelo fractal de aquisição de línguas.
Na
representação gráfica do modelo (http://veramenezes.com/textos/fractal.htm)
apresento cada subsistema
se subdividindo em várias frações, ou fractais,
representando variáveis que podem afetar todo o sistema de forma imprevisível,
pois não são entidades estanques, mas elos de uma mesma rede de conexões.
Cada fractal
também se divide em outros fractais
. O fator “estratégias
de aprendizagem
”, por exemplo, se
subdividiria em vários tipos de estratégias, como as cognitivas e
metacognitivas. Nas cognitivas, teríamos outras sub-divisões, tais como
memorização, tradução
, inferência, etc., que
também se subdividiriam. Nas metacognitivas, estariam inseridos o planejamento,
a monitoração, e a avaliação
da própria aprendizagem.
Nessa primeira versão, incluo a autonomia em um módulo que tem a motivação como palavra chave por entender que a motivação é determinada pelos graus de autonomia, além de outros fatores, tais como, necessidades, crenças sobre aprendizagem, experiências passadas de aprendizagem ou histórias de aprendizagem, afetividade, auto-estima, etc.
A
autonomia é parte importante do processo de aprendizagem, pois, é ela que faz
com que o aprendiz seja o agente de sua própria aprendizagem
e
não um objeto que se plasma de acordo com as imposições dos métodos
e
do professor.
Por ignorar o papel da
autonomia do aprendiz, os vários métodos
de ensino geraram propostas e explicações lineares sobre o
processo de aprendizagem, sem levar em conta que o ser humano é sempre o
mediador de sua aprendizagem
e que efeitos diferentes poderão surgir em reação ao mesmo
conjunto de variáveis em aprendizes diferentes. Não podemos ignorar, também,
“que o organismo apresenta tendências para determinadas formas de organização
antes de aprender algo considerado novo para ele. Essas tendências correspondem
à dinâmica intrínseca do sistema” [8].
(Pellegrini
, 2000:33)
Parafraseando Pellegrini
, eu diria que, na
aprendizagem de línguas, novos padrões comunicativos (compreendidos como padrões
sintáticos, textuais, interacionais, e discursivos) emergem e se estabelecem
com a prática (através da exposição ao idioma e de seu uso), modificando o
estado do sistema. Esse novo padrão comunicativo, que foi adquirido, com a prática
se incorpora ao atrator e o layout dos atratores
se altera, pois novos padrões vão se somando ao longo do
ciclo.
Existem várias evidências de que a aprendizagem
é um sistema
complexo. Um desses exemplos é a capacidade de adaptação, uma das características
dos sistemas
dinâmicos
. Em Paiva
(1994), verifiquei que meus informantes tentavam se adaptar ao
contexto
de aprendizagem de línguas estrangeiras, procurando aumentar
as oportunidades de uso do inglês, em evidentes demonstrações de autonomia.
Alguns relataram que conversavam consigo mesmo em frente ao espelho; outros
tentavam nomear em inglês tudo o que viam ao longo do seu percurso de ônibus
para o trabalho; assistiam a muitos filmes; ouviam canções; correspondiam-se
com estrangeiros; e, principalmente, liam muito.
Saber uma língua não é
apenas uma questão relacionada ao acúmulo de informações sobre as estruturas
lingüísticas e vocabulário
, mas, principalmente, a
capacidade de criar novos enunciados a partir das conexões e do gerenciamento
de interações orais e escritas.
Como afirma Packard, citado
por Gleick
(1989:251), no desenvolvimento da mente de uma pessoa,
desde a infância, as informações não são, evidentemente, apenas acumuladas,
mas também geradas ─ criadas a partir de ligações que não estavam ali
antes. Essa criatividade, já detectada por Chomsky
(1957), parece explicar a capacidade que leva os aprendizes a
produzir enunciados que nunca ouviram antes.
Acredito que a teoria dos
sistemas
complexos
possa explicar vários fenômenos relacionados ao processo de
aquisição de línguas e, entre eles, a questão da autonomia.
O
objetivo principal
Neste projeto, pretendo investigar o subsistema autonomia e sua
conexões com os vários subsistemas. Colegas do grupo de pesquisa
“Aprendizagem de Línguas Estrangeiras”, da UFMG , registrado no CNPq desde
1992, estarão investigando outros aspectos relacionados à aprendizagem.
O objetivo principal deste
projeto é investigar o fator autonomia do aprendiz em diversos ambientes de
aprendizagem com maior ênfase no ambiente on-line, de forma a identificar níveis
e graus desse componente do processo de aprendizagem.
Um segundo objetivo é fazer um levantamento do conceito de autonomia no
discurso de professores em processo de formação e em formação continuada.
Outro objetivo é coletar narrativas sobre aprendizagens de língua
estrangeira bem sucedidas ou não de forma a investigar como os informantes
interpretam e avaliam suas próprias experiências em relação à autonomia.
Pretendo, também, fazer uma
revisão no modelo de aquisição/aprendizagem de línguas baseado na teoria dos
sistemas complexos, cuja primeira versão foi apresentada em Paiva (2002).
O
estado atual do conhecimento
O conceito de autonomia do
aprendiz têm sido presença constante na literatura sobre aprendizagem de línguas
estrangeiras. O artigo de Rubin (1975), apesar de não utilizar os termos
autonomia ou aprendiz autônomo, foi um dos primeiros trabalhos a veicular a idéia
de autonomia. Essa idéia está implícita nas estratégias utilizadas pelo bom
aprendiz, tais como o desejo de comunicar-se e a auto-monitoração. Sete anos
mais tarde, Rubin publica e Thompson publicam um livro com “receitas” de
como se tornar um aprendiz de línguas bem sucedido intitulado How to be a
more successful leaner, cujo sub-título é “Toward learner autonomy”.
Outro trabalho seminal foi o
de Naiman et.al. que demonstrou que os alunos mais bem sucedidos eram aqueles
que assumiam a responsabilidade por sua própria aprendizagem. No Brasil,
Freitas (1997) defende que o ensino sistematizado e formalizado do uso de
estratégias de aprendizagem na aquisição de uma nova língua não só é possível
como necessário porque, além de melhorar o desempenho lingüístico do aluno,
encoraja sua autonomia ... (grifo meu), e Paiva (1997) advoga que o
professor pode contribuir para formar aprendizes mais bem sucedidos e autônomos,
incentivando-os “a se responsabilizarem por sua aprendizagem e conscientizando-os
sobre os processos cognitivos.”
Assumir a responsabilidade
pela própria aprendizagem é a idéia de autonomia mais difundida nos diversos
trabalhos sobre estratégias de aprendizagem (Dickinson, 1987 e 1992; Oxford,
1990; Cohen, 1998), pois partem do princípio que um dos objetivos
educacionais da pesquisa sobre estratégias do aprendiz é o aprendiz de línguas
autônomo[9]
(Wenden, 1987:8). Segundo Wenden (1987:7) os aprendizes necessitam se
equipar com habilidades especiais e estratégias para aprender a língua de
forma auto-direcionada[10].
Além da idéia da
responsabilidade sobre a própria aprendizagem, Thanasoulas (2000) lista uma série
de significados para autonomia: conjunto de habilidades para a
auto-aprendizagem; capacidade inata que é anulada pelo sistema educacional;
estudo totalmente solitário; direito de dirigir a própria aprendizagem;
independência; consciência lingüística; auto-direcionamento; andragogia;
capacidade de tomar decisão.
O conceito de autonomia
predominante – responsabilidade sobre a própria aprendizagem –
está associado ao que Benson (1997) denominou de autonomia técnica,
pois se refere à “equipar os aprendizes com as habilidades técnicas que
eles necessitam para gerenciar sua própria aprendizagem fora da sala de aula[11]”.
Benson (1997:19) aponta ainda dois outros tipos de autonomia – autonomia
psicológica e autonomia política. A autonomia psicológica entendida como “capacidade
– um construto de atitudes e habilidades – que permitem aos aprendizes a ter
mais responsabilidade por sua própria aprendizagem[12]”
e a versão política definida como “controle sobre os processos e o conteúdo
da aprendizagem[13]”.
A versão política é
endossada por Pennycook (1997:35) que aponta as limitações do conceito de
autonomia na aprendizagem de línguas e adota a de Young (1986:19) onde ser autônomo
é “ser autor da própria história sem estar submetido ao desejo dos outros[14]”.
Qualquer que seja o conceito
de autonomia que se queira privilegiar, parece haver um consenso entre os
autores de que autonomia não é algo dado. Como diz Dickinson (1991: 2), os
aprendizes não alcançam a autonomia ao dizermos a eles para serem autônomos
ou ao negarmos a eles o ensino convencional. Nesses casos eles estariam,
provavelmente, condenados ao fracasso[15].
O autor considera que autonomia só é conseguida através de treinamento
envolvendo alunos e professores.
A literatura sobre
autonomia, com exceção da pedagogia crítica representada por autores como
Benson (1997) e Pennycook (1997), se insere na visão positivista em que a língua,
“representação direta da realidade objetiva (ver Benson, 1997), é
vista em termos de um código – sintaxe e vocabulário. O aprendiz autônomo e
bem sucedido é aquele que sabe utilizar suas próprias estratégias para
adquirir essas estruturas e esse vocabulário Esse conceito de autonomia é,
pois, linear e pressupõe como causa do sucesso a responsabilidade sobre a própria
aprendizagem. Até mesmo a autonomia, na versão crítica de Benson (1997:22),
é vista de forma linear, pois ele argumenta que ela aumenta quando o
aprendiz torna-se mais criticamente consciente do contexto social de sua
aprendizagem e das restrições desse contexto. A equação
consciência crítica/autonomia é dada também em termos de causa e efeito. Outra
idéia predominante na literatura é a de que o professor é responsável pela
promoção da autonomia..
Metodologia
Investigar os níveis e
graus de autonomia de aprendizes de língua inglesa em diferentes ambientes de
aprendizagem é essencialmente trabalhar com diferenças individuais. As
pesquisas até então tem adotado uma posição dicotômica que categoriza os
participantes ou informantes em bons e maus aprendizes, sem levar em consideração
a multiplicidade de outros fatores.
Pretendo fazer um estudo
para avaliar graus de autonomia, utilizando (1) registros de tarefas dos
aprendizes em ambiente virtual; (2) registro de interações na sala de aula
virtual e presencial; (3) narrativas de professores e aprendizes com diversos
graus de sucesso ou insucesso na aprendizagem de língua inglesa.
Dessa forma, além de
levantamento bibliográfico para sustentação teórica e revisão do modelo
fractal de aquisição, pretendo fazer um trabalho empírico exploratório através
da observação e exame do comportamento dos aprendizes nos diversos ambientes
de aprendizagem que possam indicar diferentes aspectos da autonomia na
aprendizagem. A analise dos dados será feita dentro de uma perspectiva do
processo, levando em conta as variações de indivíduo para indivíduo. A
autonomia será investigada ao longo do processo de aprendizagem através de
pesquisa etnográfica e de narrativas de aprendizagem (relato introspectivo
sobre o processo).
O levantamento bibliográfico tem por objeto o aprofundamento
sobre a teoria dos sistemas complexos e sobre a literatura em autonomia. A
investigação empírica utilizará um corpus com registro de todas as interações
ocorridas durante 6 semestres (1999 a 2003) em cursos de leitura e escrita em
inglês, através da Internet, com alunos da graduação em Letras da UFMG.
Estarei contando, ainda, com a colaboração dos colegas do grupo de pesquisa
que estarão investigando outros aspectos da aprendizagem e que me repassarão
dados relevantes a este projeto, gravados em áudio e em vídeo.
Parte do exame dos processos
de aprendizagem em relação à autonomia será feito através da coleta e exame
de narrativas. Seguindo Bell (2002:207), a investigação através de narrativas
se baseia em pressupostos epistemológicos da produção de sentido por seres
humanos a partir de experiências aleatórias. O pesquisador seleciona os
elementos da experiência nos quais tem interesse e os categoriza de forma a
refletir os conceitos e crenças subjacentes à narrativa. As narrativas, como
adverte Pavlenko (2002) não são meras produções individuais, mas artefatos
que sofrem interferência das convenções sociais, culturais – raça, etnia,
classe social, gênero, sexualidade – e históricas, incluindo a interação
com o leitor (real ou imaginário) e o propósito para o qual a narrativa foi
produzida.
As narrativas permitirão ao
pesquisador compreender a experiência de aprendizes diferentes; recolher
informações sobre as quais os aprendizes não têm consciência; iluminar a noção
temporal da experiência, reconhecendo que a compreensão sobre as pessoas e
sobre os eventos muda com o tempo (Bell, 2002: 209).
As narrativas serão
coletadas, através de e-mail ou gravação em áudio, em português para evitar
que os textos sofram restrições das convenções do outro idioma ou alguma
limitação do desempenho comunicativo do informante. Será montada uma página
na Internet com as narrativas para acesso dos pesquisadores do grupo, pois
outros aspectos relevantes, além da autonomia aparecerão nas narrativas.
Diários de aprendizagem de
alunos da Universidade de Melbourne e da UFMG que participaram do coleta de
dados realizada pelo doutorando Ricardo Augusto de Souza sob minha orientação
e do Dr. Robert Debski, em Melbourne.
Cronograma
Março a junho de 2003: coleta
de dados, revisão do modelo teórico e publicação do primeiro artigo sobre o
modelo fractal de aquisição de línguas para periódico nacional.
Publicação do livro para a
formação continuada autônoma de professores de língua inglesa em conjunto
com outros colegas do grupo de pesquisa.
Julho a dezembro de 2003: coleta
de narrativas, análise dos dados virtuais e produção do segundo artigo sobre
o modelo fractal de aquisição de línguas para periódico estrangeiro.
Janeiro de 2004 a julho de
2004: análise comparativa de dados (de outros pesquisadores) que
contenham evidências de autonomia dos aprendizes.
Agosto a dezembro de 2004: redação
de capítulo de livro e seminário on-line, do grupo de pesquisa, sobre aspectos
sócio-cognitivos e afetivos na aprendizagem de línguas.
Janeiro a março de 2005: preparação
do Simpósio sobre complexidade e aspectos sócio-cognitivos e afetivos na
aprendizagem de línguas.
Durante
todo o projeto: orientação de bolsistas IC, alunos de especialização,
mestrandos e doutorandos com temas relacionados à autonomia na
aprendizagem (ver relação em resultados esperados).
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[1] É importante ressaltar que todos os modelos cuidam da aquisição de segunda língua e sem nenhuma referência a contextos de aprendizagem de língua estrangeira.
[2]
“As orientações atuais em relação às pesquisas de aquisição
de segunda língua podem ser
apreendidas em uma só palavra: complexidade
. Os pesquisadores começam a perceber as dimensões sociais e
interpessoais, como as psicológicas no processo de aquisição. Consideram
também que tanto o insumo quanto a produção são importantes, a forma e o
sentido são essencialmente inseparáveis, e que a aquisição é muito mais
um processo orgânico do que linear”.
(Tradução livre de Maralice de Souza Neves
)
[3][3]
“Um atrator é a combinação
de dois pontos (fixos teminais), ou seja, uma área entre esses dois pontos
na qual um objeto se move em ciclos, e tudo mais acontece.“Minha tradução
de
“An attractor is a combination of two fixed points (ends), the area in
between the two rised points which an object moves in cycles, and everything
else that happens.”
[http://library.thinkquest.org/3120/]
[4]
O termo interlíngua
foi cunhado por Selinker para
explicar um estágio de aquisição
intermediário entre a língua
materna
e a língua alvo.
[5]
Minha tradução
de “...both individual creativity and social interaction
combine to influence the shape of the developing grammar.”
[6]
“A pesquisa positivista em educação pressupõe que a história se
repete, ou seja, que o que pode ser aprendido a respeito dos eventos
passados é generalizável para os eventos futuros – nas mesmas situações
e em situações diferentes. Os pesquisadores interpretativos são mais
cautelosos em suas pressuposições. Eles entendem, juntamente com os
professores experientes, que os alunos de leitura do passado não são os
mesmos de hoje e que este momento do grupo
de
leitura não é o mesmo que o próximo.” (Tradução livre de Maralice de
Souza Neves
)
[7]
Estou usando afiliação
em substituição a aculturação,
por entender que o último é revestido de uma carga de preconceito, além
de não ser adequado ao contexto
de aprendizagem
de língua estrangeira
.
[8] Observe-se que a autora está se referindo apenas à aprendizagem de habilidades motoras, mas acredito que o mesmo pode ser verdade para outros tipos de aprendizagem.
[9]
Minha tradução de one of the leading educational golas of the research
on learner strategies is an autonomous language learner.
[10]
Minha tradução de one who is equipped with the appropriate skilss and
strategies to learn a language in a self-directed way.
[11]
Minha tradução de “to equip learners with the technical skills they
need to manage their own learning beyond the walls of the classroom.”
[12]
Minha tradução de “a capacity – a construct of attitudes and
abilities – whcih allows learners to take more responsibility for their
own learning.
[13]
Minha tradução de “control over the processes and content of learning”
[14]
Minha tradução de “authoring one’s own world without being subject
to the will of others.”
[15]
Minha tradução de “learners d onot achieve autonomy by being told to,
nor by being denied conventional class teaching; in these ways they are
likely only to achieve failure.